Para Giorgia Meloni, a Terra Média não é apenas um cenário de fantasia, mas um guia espiritual e político. Ao inaugurar uma grande exposição sobre J.R.R. Tolkien na Galeria Nacional de Arte Moderna de Roma, a primeira-ministra italiana selou uma relação de décadas entre a direita de seu país e a obra do autor britânico. O que começou como uma paixão de juventude nos acampamentos do Movimento Sociale Italiano (MSI) tornou-se a base de uma narrativa identitária sofisticada.

A apropriação remonta a 1970, quando a primeira edição italiana de *O Senhor dos Anéis* trouxe um prefácio do filósofo Elémire Zolla. Naquela leitura, a luta contra Mordor era interpretada como a resistência de comunidades "puras" contra invasores estrangeiros e a desumanização da modernidade tecnológica. Para os herdeiros do fascismo, estigmatizados pelo pós-guerra, Tolkien oferecia um novo léxico: era possível falar de tradição, hierarquia e heroísmo sem recorrer diretamente aos símbolos gastos de Mussolini.

Essa ressignificação permitiu que a direita italiana ocupasse um espaço cultural antes dominado pela esquerda, articulando valores conservadores sob o manto da "fantasia épica". Ao transformar Frodo e Aragorn em ícones políticos, o movimento conseguiu renovar sua estética e atrair novas gerações, provando que, na disputa pelo poder, o controle da narrativa muitas vezes passa pela construção de novos mitos e pela reinterpretação de clássicos universais.

Com informações de Xataka.

Fonte · Xataka