Salai acaba de relatar-me um rumor absurdo, trazido pelos ventos de séculos não nascidos, sobre uma montaria do amanhã batizada Yozma IN10. Dizem ser uma carruagem despida de cavalos, apoiada apenas em duas rodas circulares, capaz de atingir a velocidade de um falcão peregrino em seu mergulho para a presa. Para os jovens aprendizes, afirmam. O assombro me toma.
Como pode algo equilibrar-se sobre duas circunferências alinhavadas sem a largura das patas de uma mula? A resposta deve repousar no movimento rotatório contínuo, onde o próprio ímpeto esmaga a inércia e desafia o centro de gravidade. Imagino as proporções de suas entranhas. Não há tendões pulsantes nem músculos que vertem sangue, mas certamente mecanismos cerrados, engrenagens e molas como as que emprego no peito de meu leão mecânico. Falam de um fluido invisível e centelhas de energia. Seria o relâmpago celestiano capturado por alquimia em um cofre fechado? A mesma estranha vontade do âmbar atritado? Se o rio Arno escoa sob as pontes e move meus tornos com a fúria da água, a natureza há de ter um vento secreto, mais impalpável que o ar, capaz de correr pelos veios desta cavalgadura em miniatura.
Não encontro fronteira entre a beleza de um rosto que esmaece em chiaroscuro e a eficiência das juntas rodopiantes de um cata-vento. Toda mecânica é a anatomia de Deus em outra casca. Ao esboçar o voo dos morcegos, percebo que rasgar os ares exige a suavidade do contorno. Para que o garoto não seja decapitado pelo vento nesta assustadora fluidez veloz, o corpo do metal deve ser liso como o peito de uma pomba.
Devo registrar indagações urgentes no papel. Primeira: se o infante doma tal raio e corre como a pedra de uma balista, qual será a alavanca dos freios? O excesso de atrito transformaria uma base de carvalho em puras chamas, exigindo pratos de ferro puro. Segunda: onde se comprime o espaço para alimentar tal vigor formidável?
A grandeza da descoberta não reside em sua rapidez atroz cantada nos rumores. O espanto verdadeiro é notar que a maestria fez dispensar proporções imensas. Condensou o indomável em uma sela diminuta e acessível, transformando o mais singelo garoto da praça em um centauro feito apenas de carne e aço rodopiante, cavalgando rumo aos abismos do amanhã.
Mobilidade · 18 de abr. de 2026
Ensaio sobre a notícia